Caminhava eu, pela rua de uma cidade qualquer,
dessas que tem a cada esquina uma igreja. Não importa a denominação. Ter fé é
essencial. Quando as pessoas acreditam verdadeiramente começam a mudar o mundo,
a partir de si. O olhar cuidado no quintal da sua moradia, na garagem de sua
casa, ou simplesmente na calçada por onde caminha são sinais evidentes de que
assumiu firmemente o compromisso pela mudança. Existem gestos mais profundos
como o empresário que resolve – sem deduções – melhorar a condição de seus
trabalhadores (como preferem alguns, colaboradores), ou ainda o grande latifundiário
que resolve partilhar melhor a sua terra. As mudanças podem acontecer e
rapidamente melhorar o mundo, desde que a posse, a quantidade e a necessidade
de determinados bens passe a ser discutida também, com o compromisso de verdade
e de busca efetiva de realização. Não se pode levar a sério qualquer discurso
de moralidade de quem faz deboche de programa social como o Bolsa Família,
cujos resultados estão mais do que evidenciados. Aliás, o programa existe numa
expectativa de encurtamento das diferenças entre as condições precárias e desumanas
até o nível de dignidade. Não é outro o objetivo de programas sociais senão o
resgate. E como podem dizer-se defensores da moralidade esses que combatem um
programa como este? Dirão que precisa se investir na educação. Verdade. Mas, em
quanto tempo será capaz de retirar esse contingente de pessoas da condição de
pobreza extrema? E até lá, como eles podem sobreviver dignamente? Primeiro é
preciso resgatar essas pessoas para a vida com dignidade e após aplicar outros
programas complementares para que elas consigam integrar-se e alçar níveis de
liberdade, o que inclui, a não mais dependência de programas como o Bolsa
Família. Diga-se de passagem, é grande o esforço do governo federal em manter
um leque de programas de inclusão social que tem inserido no mercado de
trabalho, no de consumo, nas universidades, entre outros, parcelas
significativas da sociedade até então esquecidas. Penso que antes do
apossamento do discurso da moralidade tão decantado desde o tempo de Jânio Quadros,
é preciso que se reflita sobre a legitimidade desses paladinos em ter para si,
algo que na sua práxis diária a cada atitude revela um distanciamento. Quem
pode falar de moralidade no transporte público é quem o utiliza, vive essa
realidade, trabalha para que ela melhore efetivamente. Quem pode falar de
qualidade de vida no através do esporte e lazer é quem atua na área e não
apenas distribui uniformes, troféus ou posa em fotografias. Legitimidade se vê
também no esforço pela construção de moradias populares e não apenas, usando o
dinheiro de financiamento aberto pelo governo federal, dizer-se autor, quando
na verdade é mero executor, quando muito. Moralidade impõe que sejamos todos, fiscais de
nós mesmos, e, principalmente de não delegar à estranhos a nossa realidade
poderes que depois irão ser usados para negar aquilo que buscamos. O Bolsa Família
é uma pequena parcela, muito pequena por sinal, de distribuição de renda e
contribui para que brasileiros sintam-se “gente”, com capacidade de ter sonhos.
Isso sim é política de segurança pública. O resto é demagogia de uma elite que
aprendeu a viver sugando o esforço daqueles que verdadeiramente produzem a
riqueza.
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